Carta recebida por idosos de Oliveira do Hospital, informando-os que atingiram o limite de idade por Lei...
24
de Fevereiro de 2000
Cartas com "convite" à morte
Uma dúzia de idosos de Oliveira do Hospital receberam cartas intimidatórias para comparecerem em Lisboa para serem cremados, uma vez que, tendo como argumento o "controlo populacional", é-lhes dito que já "atingiram o limite de idade prevista por Lei".
A Polícia Judiciária poderá vir a investigar a origem dos convites macabros.
As missivas, com os símbolos da República Portuguesa e Ministério da Saúde, foram enviadas, há cerca de 15 dias, para que os destinatários pudessem comparecer no cemitério do Alto de São João, em Lisboa, "até oito dias após o recebimento deste ofício", a partir das 9 horas e "diante do forno n.º 5 - Ala Norte n.º 4, para que possamos proceder à vossa incineração".
Isto é um humor macabro!", disse ao DN Júlio Reis, presidente da Administração Regional de Saúde do Centro (ARSC). Brincadeiras à parte, Júlio Reis, a pedido da tutela, mandou instaurar um inquérito sobre a eventual utilização indevida de papel timbrado do Centro de Saúde de Oliveira do Hospital. "Caso se confirme que essas cartas foram escritas em papel utilizado naquele centro de saúde, iremos solicitar à polícia que averigúe os factos", adiantou. Na sua opinião, "poder-se-á estar perante uma simples brincadeira de mau gosto ou, mais grave, perante o abuso e apropriação indevida dos bens e nome do Estado, por alguém do centro de saúde ou estranhos aos serviços".
Caso se confirme a proveniência das folhas timbradas, e se foram usadas por funcionários daquela unidade de saúde, "nomear-se-á um inquiridor para apurar as responsabilidades de ilícito disciplinar", sustentou que, perante esta hipótese, irá dar conta também à Inspecção-Geral de Saúde. "Há que apurar os factos e processar o autor, ou autores, desta brincadeira de mau gosto", sublinha o presidente da ARSC.
Vamos ao teor de uma das cartas que começa assim: "Conforme registo nos nossos arquivos, verificamos que Vossa Exª atingiu o limite de idade prevista por Lei. Nossos estudos estatísticos indicam que a sua idade não oferece mais nenhuma vantagem para a sociedade. Muito pelo contrário, acarreta uma carga suplementar às entidades assistenciais da sua comunidade, bem como o desagrado de quem o rodeia."
O texto, escrito em computador, que alude a um número de processo e à Lei n.º 321564, de 02/10/94, pede aos idosos que "na oportunidade" se apresentem com "o Bilhete de Identidade, o Número de Contribuinte Fiscal, o Cartão de Eleitor, duas fotografias para posterior reconhecimento, o comprovante de pedido de certidão de óbito em andamento, um saco plástico (sem publicidade de qualquer espécie) para as cinzas com o número do BI impresso, dois metros cúbicos de lenha de oliveira seca ou 18 litros de gasolina super sem aditivos, o comprovante de pagamento de taxa de cremação autenticada".
Mais: "Para evitar qualquer perigo de explosão, fica assim estipulado que deste momento em diante não deverá ingerir qualquer tipo de bebida alcoólica ou comer feijões, pois provocariam reacções incontroláveis e de alta periculosidade ao ecossistema", conclui a missiva - com um "adeus" - subscrita, com assinatura ilegível, pelo "subchefe adjunto substituto do departamento de controlo da população". Uma das cartas foi carimbada pelos CTT de Celas, em Coimbra.
Em declarações ao jornal local Folha do Centro, que noticiou este caso, a esposa de um dos reformados disse que este "ficou extremamente nervoso", convencido que era, de facto, uma ordem do Governo, e por ter "alguns traumas de guerra quando viu a carta ainda ficou pior". O casal ainda pensou em participar o caso à GNR da cidade, mas, como depois do "convite mórbido" não foram incomodados com qualquer outro tipo de contacto, não avançaram com a queixa.
in Diário de Notícias